sabbath

isto está tudo ligado


2008

13:00 - Num túnel de acesso ao metropolitano, um membro de minoria étnica encosta uma navalha ao bucho burguês do meu irmão e pede-lhe, delicado, que lhe entregue o telemóvel. O meu irmão barafusta e o meliante avisa: “Não me estás a ajudar, pá.”

15:00 - Numa esquina, um indiano tenta impingir à minha mãe um cachecol da Selecção Nacional. A minha mãe recusa: “Meu bom rapaz, passo pouco tempo em Lisboa.” Afasta-se mas ainda ouve o vendedor praguejar: “Não me estás a ajudar, pá.”

18:00 - Encostado a um semáforo, um velho de aspecto andrajoso pede-me que o ajude a atravessar a rua, com destino ao café defronte. Agarro-o no ombro, suporto o intenso cheiro a mijo de que o ser parece ser feito e inicio o percurso. A meio da passadeira o fedor a urina torna-se insuportável; alivio a pressão no ombro do velho, que guincha: “Não me estás a ajudar, pá.”

22:00 O meu pai enfrenta-se ao espelho. Espreita para o quarto: a amante termina o cigarro - acaba o prazo. Nu, mira o apêndice flácido: “Não me estás a ajudar, pá.”

1935|2002

a espera


2008

Tarda pouco para o início do Euro. Tanto me dá que ganhemos ou percamos.
Caso Portugal saia vitorioso correrei ao banco a pedir novo crédito para adquirir qualquer coisa,
com o pretexto de celebrar.
Se acontecer a derrota mal não fará: os meus compatriotas rapidamente transformarão a tragédia
em mito…

untitled


2008

Liberdade, democracia, acesso à cultura, com fome, subalimentação, doença ou ignorância,
não são nada. São palavras ocas que tem mais de desespero do que não é, do que esperança
do que efectivamente vai ser.
A realidade histórica de todos os povos mal-alimentados tem estado sempre a favor das
ditaduras. Um povo subalimentado é um povo paciente, resignado, passivo, e sem força interior
para criar, ainda que no espírito e no corpo habite a grandeza que, só por estar prisioneira da
miséria alimentar, não tem disponibilidade para a vida. Disso se aproveitaram sempre as classes
e grupos opressores, preferindo os lamentos revelados em qualquer forma de arte ou folclore
como escapes inofensivos duma rebelião latente na miséria.

universo paralelo


2008

O segundo plano é o sonho recorrente do velho: ter eternamente quinze anos e poder cavalgar sem destino.

:)


2008

Ter um hobby é agradável.
Deixar que ele nos escravize é ridículo.

matriz


2008

Um homem gordo decidiu mudar a vida na noite de 13 de Outubro de 2005.
Deixou uma nota de despedida, à mulher: cinquenta euros no sofá da sala, perto do nº 123 da revista “Lavores”.
Chovia muito na noite da nova vida do gordo.
No cruzamento da Rua Cipriano Dourado com a Francisco Stromp o homem gordo abordou um rapaz:- ”Olha, miúdo. Vou arrancar-te o coração. É necessário para que possa alterar a matriz da minha existência. Importas-te? Olha que vai doer bastante.”
- “Oh, afinal é verdade! Sabe, eu acredito em astrologia e hoje, ao ler o meu signo, apenas vinha uma linha - faça alguém feliz. Pensei que fosse erro, porque costuma falar de saúde, dinheiro e amor, mas hoje dizia só isso. Onde pretende arrancar-me o coração?”
-“Boa.. não me lembrei desse detalhe. Que achas de ser aqui?. A chuva acabará por limpar o passeio.”
-“Bem pensado, amigo. Vamos lá a isto” - aderiu o rapaz. Despiu a camisola e deitou-se na calçada pronto a aceitar a morte.
“Ainda estás vivo, pá?” - perguntou o gordo com o órgão do rapaz nas mãos.
“Sim, pensei que ia morrer logo. E olhe que não doeu nem um pouco. Você é um artista, deixe que lhe diga.”
“Oh, diabo” - estremeceu o gordo -“Isto não é o teu coração. É o fígado.”
“Olhe, eu achei estranho você andar a mexer aí para baixo, mas pensei que ficar sem a bomba interferisse com a nossa capacidade de racionar, percebe? É o coração que manda o sangue para o cérebro. Não sei se entende onde quero chegar?”
O gordo arrecadou o fígado no bolso do casaco e concentrou-se em acertar com o coração. “Ah, pronto, cá está ele. Tens um batimento excelente, pá. Isto deve se para aí na ordem das 70 pulsações.”
- “É, É! Ainda a semana passada medi a tensão. Era de 68 batidas, para ser mais preciso.”
- “Vá, miúdo. Vamos a isto. Estás pronto?”
-“Cumpra o ritual, amigo.”
A mão sapuda do gordo hesitou com a travagem do veículo. De dentro de um táxi saiu uma criatura mirrada: “Espere aí. Tenha lá calma que eu quero fotografar essa merda. Estava em casa e senti as suas vibrações, senhor gordo. Aguente o processo uns segundos. Deixe-me meter o rolo. Puta de luz. Ó chefe, tem aí um foco, por acaso?”. O taxista encolheu os ombros, vou ver!, olhe não, e agora?.
-“Chefe, faça inversão de marcha e aponte os faróis para aqui. Vá, rápido que a morte está à espera.”
Do outro lado da rua a Morte aguardava que o sinal dos peões ficasse verde. Tinha sido bem pensado pelo homem gordo: aqueles sinais eram os mais demorados de Lisboa.
O homem da máquina fotográfica debruçou-se sobre o rapaz sem fígado: “Está quase. Deixa-me só medir a luz.” . O rapaz reparou na t-shirt do fotógrafo : “O medo é um detonador que desencadeia a salvação.” “a sua t-shirt. Que frase gloriosa.”- “Sabes quem é o autor? Kinrad Lorenz. Vá, já não morres estúpido. Como te sentes miúdo?”
“Por estranho que possa parecer estou tranquilo. Sinto uma calma tal…”
-“Sim, uma calma de morte, não é?” grunhiu risonho o gordo.
A morte sorriu, do outro lado da estrada.
O gordo rosnou:-“Hás-de me dizer quem é o teu dentista, ó filha da puta”. Hás-demedizerqueméoteudentista,ófilhadaputa saiu da boca do anafado mas não chegou audível aos ouvidos da Morte, que a chuva ensarilhou as palavras , transformando-as numa onomatopeia de dentes a quebrarem-se num sorriso desonesto.
A mão do gordo acertou no coração do rapaz; arrancou-o à primeira sincronizado com o obturador do fotógrafo que com a outra mão pagava a corrida ao taxista. “Adeusinho e olhe que este foi o serviço mais macaco que fiz em 30 anos de serviço.”
O gordo guardou o coração no outro bolso, pousou a cabeça do miúdo:- “Aceita a morte. Não queiras andar por aí a viver sem coração. Era capaz de ser chato. Ah Ah Ah”, e rumou a casa. O fotógrafo fez o último retrato, tirou o rolo e depositou-o na cavidade que o coração do rapaz outrora ocupara:-”Leva-o contigo. São as fotos de uma vida, Entendes? Eh, lá, o taxista já foi. Deixei a minha mala no banco. Ora merda. Bem, boa sorte, pá.”
O sinal ficou verde. A morte atravessou e foi atropelada pelo taxista que dera conta da mala, esquecida no banco traseiro.
O homem gordo abriu a porta do prédio. Suspirou. Um mendigo cantou sem desafinar:-”Doutor, ajude-me. Dê o que puder.”
O gorducho estendeu-lhe o coração e entrou no prédio, O estrondo da porta abafou a ira do pedinte: “Foda-se ! O que é que eu faço com um coração?”.

1965|—-

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à minha


2008

Conheci um trolha, numa aldeia perdida. Bombeiro voluntário.
Fiz-lhe um retrato, em sua casa.
A cama desalinhada, o bacio ainda cheio, encostado à parede.
A mãe chegou e abriu uma garrafa de espumante. Pedi-lhe que, de
forma aleatória, escolhesse um nome na lista telefónica.
Brindámos à vida de José Lourenço Ferreira, residente em Ribamondego.

1945|1999

canis canem edit


2004

Fui motorista de TIR, a distribuir Leicas, nas cercanias de Miranda do Douro.
Em Pena Branca conheci o velho Artur, que descobriu que sabia enquadrar qual Natchway. O Germano, esse, revelou-se exímio na arte de ampliar, com trabalhos de fazer corar os ajudantes do Salgado.
Os velhos juntaram uns trocos, provenientes das tristes reformas, e montaram uma exposição fotográfica na Casa do Povo de Pena Branca. A mostra artística foi um sucesso: comida à farta, música de rancho, na aparelhagem, e o padre bêbedo.
Fora dali ninguém soube deste prodígio.

terapia

A conjugalidade é violência em si mesma. Que ela seja acompanhada de porrada mais não é que a continuidade e prática lúdica desse estado. Assumamos que a pancadaria une os seres. Afinal sempre propicia contactos físicos tanto iterativos como continuados. e das suas virtudes terapêuticas façamos sínodo e apregoemos ao mundo as vantagens inequívocas da violência. ou não será o coito uma forma de violência? Basta ver, ou imaginar, o esforço oscilante de quadris e suores resultantes do esforço benfazejo…