
2008
Um homem gordo decidiu mudar a vida na noite de 13 de Outubro de 2005.
Deixou uma nota de despedida, à mulher: cinquenta euros no sofá da sala, perto do nº 123 da revista “Lavores”.
Chovia muito na noite da nova vida do gordo.
No cruzamento da Rua Cipriano Dourado com a Francisco Stromp o homem gordo abordou um rapaz:- ”Olha, miúdo. Vou arrancar-te o coração. É necessário para que possa alterar a matriz da minha existência. Importas-te? Olha que vai doer bastante.”
- “Oh, afinal é verdade! Sabe, eu acredito em astrologia e hoje, ao ler o meu signo, apenas vinha uma linha - faça alguém feliz. Pensei que fosse erro, porque costuma falar de saúde, dinheiro e amor, mas hoje dizia só isso. Onde pretende arrancar-me o coração?”
-“Boa.. não me lembrei desse detalhe. Que achas de ser aqui?. A chuva acabará por limpar o passeio.”
-“Bem pensado, amigo. Vamos lá a isto” - aderiu o rapaz. Despiu a camisola e deitou-se na calçada pronto a aceitar a morte.
“Ainda estás vivo, pá?” - perguntou o gordo com o órgão do rapaz nas mãos.
“Sim, pensei que ia morrer logo. E olhe que não doeu nem um pouco. Você é um artista, deixe que lhe diga.”
“Oh, diabo” - estremeceu o gordo -“Isto não é o teu coração. É o fígado.”
“Olhe, eu achei estranho você andar a mexer aí para baixo, mas pensei que ficar sem a bomba interferisse com a nossa capacidade de racionar, percebe? É o coração que manda o sangue para o cérebro. Não sei se entende onde quero chegar?”
O gordo arrecadou o fígado no bolso do casaco e concentrou-se em acertar com o coração. “Ah, pronto, cá está ele. Tens um batimento excelente, pá. Isto deve se para aí na ordem das 70 pulsações.”
- “É, É! Ainda a semana passada medi a tensão. Era de 68 batidas, para ser mais preciso.”
- “Vá, miúdo. Vamos a isto. Estás pronto?”
-“Cumpra o ritual, amigo.”
A mão sapuda do gordo hesitou com a travagem do veículo. De dentro de um táxi saiu uma criatura mirrada: “Espere aí. Tenha lá calma que eu quero fotografar essa merda. Estava em casa e senti as suas vibrações, senhor gordo. Aguente o processo uns segundos. Deixe-me meter o rolo. Puta de luz. Ó chefe, tem aí um foco, por acaso?”. O taxista encolheu os ombros, vou ver!, olhe não, e agora?.
-“Chefe, faça inversão de marcha e aponte os faróis para aqui. Vá, rápido que a morte está à espera.”
Do outro lado da rua a Morte aguardava que o sinal dos peões ficasse verde. Tinha sido bem pensado pelo homem gordo: aqueles sinais eram os mais demorados de Lisboa.
O homem da máquina fotográfica debruçou-se sobre o rapaz sem fígado: “Está quase. Deixa-me só medir a luz.” . O rapaz reparou na t-shirt do fotógrafo : “O medo é um detonador que desencadeia a salvação.” “a sua t-shirt. Que frase gloriosa.”- “Sabes quem é o autor? Kinrad Lorenz. Vá, já não morres estúpido. Como te sentes miúdo?”
“Por estranho que possa parecer estou tranquilo. Sinto uma calma tal…”
-“Sim, uma calma de morte, não é?” grunhiu risonho o gordo.
A morte sorriu, do outro lado da estrada.
O gordo rosnou:-“Hás-de me dizer quem é o teu dentista, ó filha da puta”. Hás-demedizerqueméoteudentista,ófilhadaputa saiu da boca do anafado mas não chegou audível aos ouvidos da Morte, que a chuva ensarilhou as palavras , transformando-as numa onomatopeia de dentes a quebrarem-se num sorriso desonesto.
A mão do gordo acertou no coração do rapaz; arrancou-o à primeira sincronizado com o obturador do fotógrafo que com a outra mão pagava a corrida ao taxista. “Adeusinho e olhe que este foi o serviço mais macaco que fiz em 30 anos de serviço.”
O gordo guardou o coração no outro bolso, pousou a cabeça do miúdo:- “Aceita a morte. Não queiras andar por aí a viver sem coração. Era capaz de ser chato. Ah Ah Ah”, e rumou a casa. O fotógrafo fez o último retrato, tirou o rolo e depositou-o na cavidade que o coração do rapaz outrora ocupara:-”Leva-o contigo. São as fotos de uma vida, Entendes? Eh, lá, o taxista já foi. Deixei a minha mala no banco. Ora merda. Bem, boa sorte, pá.”
O sinal ficou verde. A morte atravessou e foi atropelada pelo taxista que dera conta da mala, esquecida no banco traseiro.
O homem gordo abriu a porta do prédio. Suspirou. Um mendigo cantou sem desafinar:-”Doutor, ajude-me. Dê o que puder.”
O gorducho estendeu-lhe o coração e entrou no prédio, O estrondo da porta abafou a ira do pedinte: “Foda-se ! O que é que eu faço com um coração?”.